Clamidiose

A Clamidiose foi pela primeira vez descrita em humanos na Europa em 1876. Numerosos surtos foram descritos naquela época cuja origem seria papagaios infectados da Argentina. A doença se tornou uma pandemia entre 1929 e 1930 com aproximadamente 1000 casos com mais de 20 % de letalidade. Neste período pesquisadores ingleses isolaram o agente etiológico - Clamydia psitacci. Após a epidemia muitos países proibiram a importação de psitacideos da América do Sul. A importação comercial para os Estados Unidos foi proibida pelo Departamento de Agricultura em 1946. A proibição, entretanto foi suspensa em 1973 sendo que as aves ficavam em quarentena e eram testadas em instalações aprovadas para Doença de Newcastle velogênica e viscerotrópica ou seja estas instalações eram usadas para quarentena de aves que poderiam apresentar a forma patogênica que atinge as vísceras das aves. Durante o período de quarentena, o Serviço de Saúde Pública norte americano padronizou as normas de tratamento para Clamidiose que foram aplicadas pela equipe do Departamento de Agricultura.
A Chlamydia pertence a classe Rickettsiae e a ordem Chlamydiales, esta ordem consiste de uma única família - Chlamydiaceae, a qual é composta de um único genero: Chlamydia. Neste genero existem quatro espécies : C. trachomatis e C.pneumonia, as quais primariamente infectam o homem, C. pecorum, a qual é proposta como uma cepa específica de ruminantes; e C.psittaci, a qual infecta uma grande variedade de hospedeiros tanto aves como mamíferos.
Chlamydia é um parasita intracelular obrigatório, inicialmente classificado como um dos grandes vírus mas ela é mais um organismo do grupo das bactérias que contem RNA, DNA, ribossomos e parede celular.
Entre os hospedeiros deste microrganismo estão incluídos o homem, os gatos, as ovelhas, os bovinos, os equinos, os suínos, e as aves.
A infecção das aves do grupo dos psitacídeos é descrita como Psitacose, em outras aves a doença é conhecida como Ornitose.
A infecção zoonótica de seres humanos com C. psittaci tem sido tradicionalmente chamada de psitacose ou febre do papagaio.
Por causa do agente causal ser o mesmo em todos os casos tem sido recomendado que o termo Clamidiose seja usado para indicar infecção por C.psittaci.
As fezes e os exsudatos respiratórios são as fontes primárias de infecção nas aves. A apresentação clínica da Clamidiose em aves é muito variada. O paciente pode se apresentar com uma infecção intestinal ou respiratória superior crônica ou com uma doença sistêmica aguda. Algumas aves podem ser portadoras assintomáticas, e são responsáveis por um risco relativo mais alto de transmissão da doença.
Os sintomas clínicos incluem sinais não específicos respiratórios e oftalmológicos, perda de peso, anorexia, e uma condição alterada do sistema tegumentar (pele, penas, bicos, escamas dos pés).
O fígado é comprometido pela doença e uma diarreia verde aquosa pode estar presente sugerindo aumento da bilirrubina resultante de destruição hepatocelular, ou obstrução biliar. Quando uma ave apresenta estes sintomas é importante inquerir quando e onde a mesma foi adquirida, se ela passou por situações de stress recentemente e se os membros da família do proprietário tiveram sintomas típicos de gripe.
O diagnóstico é baseado em exames hematológicos que incluem o hemograma, bioquímica sérica, e exames de imagem como a radiografia que poderão evidenciar aumento do fígado e baço. A sorologia é a ferramenta mais usual para fechar o diagnóstico, sendo o teste direto de fixação de complemento o método usado para os grandes psitacideos. Já nos pequenos psitacídeos e nos passeriformes este método não é usado. Recentemente o teste de microimunofluorescência tem se destacado como o teste diagnóstico mais específico e mais sensível do que a fixação de complemento. O isolamento e a identificação do agente nas amostras de fezes ou através do swab de cloaca, pode ajudar a confirmar o diagnóstico. As fezes devem ser coletadas de três a cinco dias e colocadas em meio de transporte especial. O exame de maior precisão para diagnóstico da Clamidiose humana e aviária entretanto é a Reação da Cadeia de Polimerase (PCR). Quando a ave vem a obito o diagnóstico pós mortem pode ser feito por esfregaços de fígado, baço e sacos aéreos.
O tratamento da clamidiose em aves inclue o uso de antibióticos por períodos de 30 até 45 dias. Os proprietários de aves com diagnóstico de clamidiose devem estar conscientes do risco de transmissão desta doença para os seres humanos e usar luvas, máscaras e roupa de proteção (aventais descartáveis) quando manipular aves doentes e materiais contaminados por elas.
A clamidiose humana se manifesta por uma leve e transitória doença semelhante à gripe, em alguns casos ocorre uma doença pneumônica mais séria com febre alta, calafrios, dor de cabeça, náusea e mal estar. As complicações da Clamidiose em humanos incluem encefalite, pericardite, miocardite, endocardite e doença cardíaca valvular crônica. Esta condição pode ser fatal. O homem adquire a clamidiose pela inalação de aerossóis de excrementos infectados bem como de penas e descamações da pele de aves infectadas que podem também ser fontes de infecção. Uma nova cepa de Chlamydia psittaci foi recentemente identificada e chamada de cepa TWAR. Esta cepa é transmitida pelo contato entre seres humanos e causa uma leve pneumonia.
A Clamidiose humana pode ser diagnosticada pelo isolamento de C.psittaci do escarro somente nos primeiros 3 a 7 dias após a infecção.
Os psitacídeos são as mais importantes fontes de infecção pela Chlamydia psittaci, assim sendo o controle da clamidiose humana começa com o controle deste agente etiológico nos psitacídeos.